Primeiro registre-se: a terceirização é uma realidade no
mundo globalizado. Não existem fabricantes de veículos, mas montadoras. A Dell,
uma dos maiores fornecedores de computadores e periféricos do mundo não fabrica
nada, só coloca sua marca. O mesmo acontece com a maioria dos celulares. A moda
apresentada em glamorosas passarelas é produzida em locais nada nobres, às
vezes o ambiente de produção é próximo do trabalho escravo.
Essa é a premissa que caracteriza dois modelos de terceirização:
1. Por competência e proficiência:
- -Os fornecedores
desses seguimentos são parceiros com certificação internacional. Ou seja, a
terceirização nesses casos é para ganhar qualidade e competitividade: são
compartilhados até entre concorrentes diversos, componentes, peças e partes de
fornecedores comuns. No setor automotivo, por exemplo, motores, amortecedores,
freios, pneus, entre outros, suprem veículos de diferentes marcas. Na parte
eletrônica, a Global Foundries – de investidores de Abu Dhabi- domina
mundialmente a fabricação e o fornecimento de circuito integrado, componente
básico de tudo que envolve tecnologia eletrônica, com qualidade e
confiabilidade.
Em
resumo: nesse ambiente a terceirização é um instrumento de gestão, não tem o
objetivo de dar ou tirar emprego, mas de especializar para melhorar a competitividade.
2. Terceirização Precária:
-Nesse ambiente o
objetivo é atender uma quantidade maior de demandas com menor numero de pessoas
remuneradas possível. Depende de mão de
obra intensiva, treinada para desenvolver uma etapa do processo ou uma
atividade que não demande conhecimentos abrangentes ou complexos.
É o tipo de terceirização em que qualquer
desoneração da mão obra proporciona redução direta nos custos. Assim, gestores
ou donos desses negócios, procuram instalar suas empresas em locais que possuam
grande concentração de trabalhadores sem especialização, pouca fiscalização,
pouca exigência sócio- ambiental e reduzida (de preferência nenhuma) quantidade
de normas regulamentadoras (que é o objetivos das tais “reformas trabalhista”
do PSDB/Temer).
A maior e mais
importante empresa de terceirização do mundo nesse segmento é a Li&fung. Fundada
em 1906 na China A chamada “fábrica sem fumaça” é atualmente um potência na
prestação de serviços e fornecimentos de produto acabados, partes e matéria
prima: com uma logística eficiente e eficaz e conhecimento privilegiados de
regiões com as características citadas acima (item 2), ela possui centenas de
nichos de manufatura espalhados por toda a Ásia, (principalmente na China) para
os quais distribui, acompanha e controla as encomendas, de acordo com o perfil
de cada região. A maioria desses produtos é vestuário e acessórios em geral.
A TERCEIRIZAÇÃO NO BRASIL
Calote em empregados, fornecedores e clientes. Encerramento
fraudulento de atividades para não honrar compromissos, sonegação de impostos, condições
precária de trabalho e remuneração, com jornada além do que estabelece a CLT
(sem pagamento de horas extras), quarteirização de atividades na forma de
subcontrato informal, trabalho escravo e até tráfico internacional de
trabalhador.
Infelizmente essa e a característica predominante da maior
parte das empresas que prestam serviços terceirizados no Brasil. São poucas as
terceirizadas sérias.
Aliás, esse quadro
era previsível: porque um serviço ou atividade que demande o trabalho full time
do empregado na empresa, é passado para ser gerido por terceiros? Qual é ganho ao se trocar um empregado por uma
estrutura empresarial de prestador de serviços, para fazer o que o empregado já
fazia sob a gestão direta? Isso só faz
sentido quando se trata de uma atividade complexa ou altamente especializada,
não dominada pela contratante.
Assim, no Brasil, o que predomina é a Terceirização Precária,
caracterizada pela precarização da mão de obra onde os ganhos ficam com os
intermediários ou agenciadores e os riscos com os trabalhadores. Os golpes
nessa área se multiplicam: empresas criadas para desempenhar uma determinada
atividade, recebem os valores contratados e somem sem cumprir os direitos
trabalhistas. Depois, o mesmo proprietário ou sócio, abre outra empresa com
razão social diferente.
Um segmento com grande incidência dessa prática é o de call
center cuja a prática de calote tem afetado inclusive atendimentos de
serviços públicos, com abandono dos serviços: www.em.com.br/.../crescem-denuncias-contra-empresas-que-aplicam-golpes-
na-terceirizacao.shtml).
Por outro lado, são os trabalhadores relacionados à produção
de itens ligados à moda que apresentam as maiores quantidades de denúncias e
constatação de condições que se assemelham ao de trabalho escravo: marcas
famosas que terceirizavam suas confecções tiveram seus produtos encontrados em
oficinas de costura com locais insalubres, trabalhadores com jornada de 15
horas, moradia nos locais de trabalho gerando dívidas ilegais imputadas aos
trabalhadores pelos agenciadores, trabalho de menores de 14 anos. As principais
vítimas são pessoas de origem boliviana e peruana: http://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2016/06/Fasc%C3%ADculo-Confec%C3%A7%C3%A3o-Textil_Final_Web_21.01.16.pdf (veja também em: MTE- G1/BBC BRASIL
20/06/2016 e Valor Econômico 08/04/2016). Até o IBGE teve
três mil coletes confeccionados nessas condições em 2010.
Também grandes empresas de outros seguimentos têm sido
flagradas em situações de trabalho terceirizado semelhante: o grupo Odebrecht,
por exemplo, foi processado por tráfico de seres humanos e submissão ao
trabalho escravo de brasileiros em Angola (https://mpt.jusbrasil.com.br/.../odebrecht-pagara-r-30-mi-para-encerrar-acao-por-trab.).
É nesse contexto, o
pior possível para o trabalhador da iniciativa privada, em que se dá a
aprovação da terceirização nas atividades fins:
- O país despencou dezenove posições no ranking da
desigualdade social divulgada em 14 de março deste ano. E mais: é o país mais
desigual da América Latina e o motivo principal dessa queda foi o crescimento
na diferença de renda entre pobres e ricos.
- Tem o maior nível de desemprego da história, o que faz o
trabalhador refém de gestores inescrupuloso e empresários gananciosos (Sem a
intenção de generalizar).
- O governo postiço e eticamente ilegítimo esconde o
trabalho escravo aos olhos do mundo (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38386804) talvez receando que as denúncias cheguem as empresas que os apoia, ou
parlamentares dos partidos que os sustentam no poder.
- Esse mesmo governo quer acabar com a justiça do
trabalho: http://g1.globo.com/politica/noticia/para-maia-reforma-trabalhista-e-timida-e-justica-do-trabalho-nao-deveria-existir.ghtml premissa básica para as intenções das retiradas
de direitos dos trabalhadores da iniciativa privada. Os abusos flagrados em
diversos setores serão anistiados por omissão do estado, visto que poderão ser
enquadrados como uma situação legal de acordo entre patrão empregado. E o cruel
dessa situação é que na falta de outra perspectiva para obter qualquer tipo de
renda, o trabalhador se submeterá a qualquer condição para levar o mínimo de
sustento para sua casa, ou barraco.
È claro que o país não é constituído só pelo caráter dos
ocupantes atual dos três poderes: existem empresários e gestores sensíveis e
comprometidos com a ética, a compaixão e a moralidade. Mas, a aprovação da
terceirização nas condições atuais, estabelece um cabo de guerra em que de um
lado tem um leão faminto e do outro um frágil cordeiro com a corda amarrada no
pescoço.
Loamy

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